POESIA

O Cacto

Aquele cacto lembrava os gestos desesperados da estatuária:
Laocoonte constrangido pelas serpentes,
Ugolino e os filhos esfaimados.
Evocava também o seco Nordeste, carnaubais, caatingas...
Era enorme, mesmo para esta terra de feracidades excepcionais.

Um dia um tufão furibundo abateu-os pela raiz.
O cacto tombou atravessado na rua,
Quebrou os beirais do casario fronteiro,
Impediu o trânsito de bondes, automóveis, carroças,
Arrebentou os cabos elétricos e durante vinte e quatro
horas privou a cidade de iluminação e energia:

— Era belo, áspero, intratável.

(In: Bandeira, Manuel. Poesias. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1955, p. 177. Disponível em: https://www.ocacto.com.br/single-post/2016/02/18/O-Cacto)

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